sábado, 31 de janeiro de 2009

Exemplo de projeto

Oi, pessoal, infelizmente não deu para marcar a reunião com a minha irmã, Maria Fernanda, que desenvolve um projeto em Vitória-ES bem semelhante ao nosso. Mas lá vai o texto do projeto que está sendo implementado por ela e seus alunos da UFES, pois acho que ele pode nos ajudar.

PROJETO DE LEITURA: A REPRESENTAÇÃO NEGRA NA LITERATURA.







1 – INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA




A proposição deste projeto se dá no âmbito do componente curricular denominado Laboratórios de Práticas Culturais do curso de licenciatura em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa da UFES. Nesse espaço, a disciplina Seminário de Extensão III, no semestre 2008-2, está voltada para a produção e realização de projetos de extensão que tenham como objetivo a leitura de textos literários. É importante destacar que, do ponto de vista que adotamos, a literatura, a arte, e as práticas de leitura a elas relacionadas, são consideradas como presença indispensável à formação do aluno na escola; entretanto, há que considerá-las de uma perspectiva não-tradicional, que enfatize seu aspecto por definição irredutível ao caráter de “conteúdo didático”. Desse modo, se justifica um modo de “ensinar” que, procurando afinar-se com o discurso literário, busque estratégias capazes de garantir, no aprendizado da leitura, o reconhecimento do movimento criador que lhe é próprio.




2- OBJETIVO




O objetivo geral deste projeto é o fortalecimento dos laços culturais entre os alunos e a produção artística, especialmente a arte literária, por meio de práticas de leitura e interpretação de textos que não se restringirão ao âmbito da linguagem verbal.

Como objetivo específico, tem-se a discussão de um tema de interesse para toda a comunidade escolar: a diversidade social, os constrangimentos e preconceitos, em particular os de ordem racial, que afetam a convivência nos espaços público e doméstico.







3 – CORPUS




Contos machadianos: “O caso da vara”, “Pai contra mãe”.

Filmes: “Quanto vale ou é por quilo?”, “Pai contra mãe”.

Músicas: “Navio negreiro”; “Negro drama” (Racionais MC’s)

Imagens da escravidão no Brasil e da cultura negra atual.




Obs: o corpus poderá sofrer alterações com o desenvolvimento das aulas e levando-se em consideração as preferências e o perfil dos envolvidos.




4 – METODOLOGIA




Pretendemos fazer uso da metodologia de leitura desenvolvida por Rildo Cosson, em Letramento Literário (São Paulo: Contexto, 2006). O autor propõe quatro etapas para o desenvolvimento de projetos que visem à aproximação dos alunos com o discurso literário. A seguinte explanação é um resumo, adaptado aos propósitos do presente trabalho, da metodologia desenvolvida por este autor.




1- Motivação:




Parte-se da idéia de que, para que ocorra ato imaginativo, indispensável à compreensão e interpretação de um texto literário, é preciso que haja interesse/disposição do ouvinte/leitor com relação a este. O texto literário, sendo em princípio um ato criativo e fantasioso (Freud), necessita de um convite inicial para que o leitor adentre no plano ficcional e possa realmente vir a deleitar-se com as experiências e questionamentos que a ficção lhe oferece. Desse modo, antes do ato de leitura, deve-se buscar, por meio de uma atividade específica, uma aproximação entre a realidade das experiências dos ouvintes/leitores e o mundo ficcional que encontrarão no texto.




Em nosso projeto, as atividades de motivação consistirão na leitura de imagens ligadas à situação social do negro e às manifestações culturais negras do século XIX até a atualidade.




2- Introdução




A proposição deste momento do trabalho, que talvez seja, dentre os que compõem a metodologia adotada, um dos mais familiares à abordagem usual da literatura na escola, busca sua fundamentação nos estudos sobre a obra de Mikhail Bakhtin. Este autor afirma que todo enunciado, todo texto, é constituído de muitos outros textos que incorporou e os quais discute, concordando com eles, discordando, acrescentando, distinguindo, enfim, modificando as suas proposições. Assim, compreendendo que os sujeitos, ao falar, escrever, e também ao ler, respondem discursivamente a vários discursos que circulam socialmente, temos que considerar que quaisquer produções de linguagem apresentam-se como produções de resposta ao meio social. É nesse sentido que a apresentação sucinta de alguns dados sobre o autor e do contexto social e literário em que sua produção se perfila é considerada um momento necessário no desenvolvimento de um projeto de leitura. No entanto, julgamos necessário enfatizar que as informações aí fornecidas não devem, nesse passo ainda inicial do desenvolvimento do projeto, ser excessivamente desdobradas, a ponto de tornarem-se foco de uma atenção especial, maior do que a dedicada às atividades de leitura e interpretação da obra, que se destinam apenas a preparar. Tais informações, portanto, longe de serem tomadas como o “conteúdo” a ser retido e, de certa maneira, apenas confirmado pela leitura da obra, como muitas vezes acontece no ensino tradicional da literatura, devem apenas permitir que o leitor cerque previamente a obra que vai ler de uma rede de relações, sem as quais a leitura não faria sentido.




Sendo Machado de Assis o autor literário ao qual dedicaremos maior atenção, a introdução abordará aspectos ligados à produção de sua obra.




3- Leitura:




Buscaremos, durante a execução do projeto, desenvolver o diálogo entre textos que se utilizam de diversos recursos comunicativos: escritos, visuais, auditivos, audiovisuais ou corporais, dado que todas essas produções são discursos, portanto, texto, como os textos verbais, e prestam-se, como eles, à leitura. Com relação a esta última, considerada, no seu sentido restrito, como a atividade de decodificação e compreensão do texto, frisemos que, de acordo com o que ficou dito a respeito do discurso no item anterior, entendemos a leitura como produção discursiva que, nascendo na esfera social, não pode deixar de dirigir-se à mesma esfera, como resposta ao texto lido e à visão de mundo que ele projeta.




Propomos, inicialmente, a leitura de dois contos de Machado de Assis: “O caso da vara” e “Pai contra mãe”.




4- Interpretação:




Este momento se divide em dois movimentos distintos mas interligados, como se explica a seguir.




4.1- Interpretação Individual:




Ainda na perspectiva bakthiniana, ou seja, sabendo que cada indivíduo responde ao discurso apresentado de forma singular, propomos num primeiro momento, após a leitura de cada texto literário, uma produção textual individual. Trata-se, aqui, de garantir espaço e tempo para que os alunos possam expressar suas reações diante do ato da leitura, proporcionando-lhes uma inversão de papéis, sendo agora cada um deles o agente direto da criatividade. Dessa forma também é possível que conheçamos, mesmo que de maneira indireta e preservando, sempre que exigido, a privacidade desses escritos de caráter pessoal, as leituras de mundo dos envolvidos, convocadas pela provocação do texto literário recém-lido.




A proposta de atividade de interpretação individual será definida no decorrer do trabalho, levando em consideração a interação estabelecida entre a coordenadora das atividades e as turmas envolvidas.




4.2- Interpretação coletiva:




Cremos que a escola é um espaço privilegiado para se repensar/discutir essas leituras de mundo, assumindo aqui a leitura seu tão importante papel transformador. Se toda leitura é também uma resposta ao mundo ao qual a própria leitura pertence e no qual se dá, resposta esta que plasma a posição do sujeito diante do mundo, no momento de seu diálogo com um texto, é necessário que, depois de formuladas, as respostas individuais sejam reenviadas ao espaço social real e aí se encontrem, confrontem e modifiquem no consórcio com as posições de outros sujeitos sociais. Propomos então, após a produção individual, uma atividade coletiva onde os alunos tenham momentos para discutir a elaboração de uma outra produção relacionada a interpretação do texto trabalhado, chocando assim suas idéias e promovendo reflexões a respeito das divergências suscitadas.




Também no que se refere a este momento, queremos deixar em aberto, para posterior discussão com a equipe pedagógica, em face dos desdobramentos do trabalho, a realização da produção coletiva com que serão encerrados os trabalhos deste projeto.










5- Referências bibliográficas:




BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 261-306.

COSSON, Rildo. Letramento Literário. São Paulo: Contexto, 2006.

FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneio. In: Obras Completas, Vol. IX, p. 133-143.

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