terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sabina (1875)

Nossa segunda leitura foi o poema Sabina, também de temática racial. Foi publicado em Americanas, um livro de poemas de Machado datado de 1875. Eis a triste história...

SABINA

Sabina era mucama da fazenda;

Vinte anos tinha; e na província toda

Não havia mestiça mais à moda,

Com suas roupas de cambraia e renda.

Cativa, não entrava na senzala,

Nem tinha mãos para trabalho rude;

Desbrochava-lhe a sua juventude

Entre carinhos e afeições de sala.

Era cria da casa. A sinhá-moça,

Que com ela brincou sendo menina,

Sobre todas amava esta Sabina,

Com* esse ingênuo e puro amor da roça.

Dizem que à noite, a suspirar na cama,

Pensa nela o feitor; dizem que um dia,

Um hóspede que ali passado havia,

Pôs um cordão no colo da mucama.

Mas que vale uma jóia no pescoço?

Não pôde haver o coração da bela.

Se alguém lhe acende os olhos de gazela,

É pessoa maior: é o senhor moço.

***

Ora, Otávio cursava a Academia.

Era um lindo rapaz; a mesma idade

Co’as passageiras flores o adornava

De cujo extinto aroma inda a memória

Vive na tarde pálida do outono.

Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas

Da primeira estação, porque tão cedo

Voais de nós? Pudesse ao menos a alma

Guardar consigo as ilusões primeiras,

Virgindade sem preço, que não paga

Essa descolorida, árida e seca

Experiência do homem!

***

Vinte anos

Tinha Otávio, e a beleza e um ar de côrte*

E o gesto nobre, e sedutor o aspecto;

Um vero Adônis, como aqui diria

Algum poeta clássico, daquela

Poesia que foi nobre, airosa e grande

Em tempos idos, que ainda bem se foram...

Também eu a adorei, uma hora ao menos,

E suspirei destes remotos climas

Pelas formosas ribas do Escamandro,

Onde descia, entre soldados gregos,

A moça Vênus; frívolo suspiro

Que não pode acordar dos seus sepulcros

Esses numes brincões da velha idade,

Mortos por seus pecados — que os tiveram,

E por sossego nosso. Eram amáveis

E belos no seu tempo; hoje fariam

Igual papel ao do tardio máscara

Que, ao desdobrar a aurora os panos de ouro,

Entre madrugadores se aventura.

***

Cursava a Academia o moço Otávio;

Ia no ano terceiro: não remoto

Via desenrolar-se o pergaminho,

Prêmio de seus labores e fadigas;

E uma vez bacharel, via mais longe

Os curvos braços da feliz cadeira

Donde o legislador a rédea empunha

Dos lépidos frisões do Estado. Entanto,

Sobre os livros de estudo, gota a gota

As horas despendia, e trabalhava

Por meter na cabeça o jus romano

E o pátrio jus. Nas suspiradas férias

Volvia ao lar paterno; ali no dorso

De brioso corcel corria os campos,

Ou, arma ao ombro, polvorinho ao lado,

À caça dos veados e cotias,

Ia matando o tempo. Algumas vezes

Com o padre vigário se entretinha

Em desfiar um ponto de intrincada

Filosofia, que o senhor de engenho,

Feliz pai, escutava glorioso,

Como a rever-se no brilhante aspecto

Do* suas ricas esperanças.

***

Era

Manhã de estio; erguera-se do leito

Otávio; em quatro sorvos toda esgota

A taça de café. Chapéu de palha,

E arma ao ombro, lá foi terreiro fora,

Passarinhar no mato. Ia costeando

O arvoredo que além beirava o rio,

A passo curto, e o pensamento à larga,

Como leve andorinha que saísse

Do ninho, a respirar o hausto primeiro

Da manhã. Pela aberta da folhagem,

Que inda não doura o sol, uma figura

Deliciosa, um busto sobre as ondas

Suspende o caçador. Mãe d’água fora,

Talvez , se a cor de seus quebrados olhos

Imitasse a do céu: se a tez morena,

Morena como a esposa dos Cantares,

Alva tivesse; e raios de ouro fossem

Os cabelos da cor da noite escura,

Que ali soltos e úmidos lhe caem,

Como um véu sobre o colo. Trigueirinha,

Cabelo negro, os largos olhos brandos

Cor de jabuticaba, quem seria,

Quem, senão a mucama da fazenda,

Sabina, enfim? Logo a conhece Otávio,

E nela os olhos espantados fita

Que desejos acendem. — Mal cuidando

Daquele estranho curioso, a virgem

Com os ligeiros braços rompe as águas,

E ora toda se esconde, ora ergue o busto,

Talhado pela mão da natureza

Sobre o modelo clássico. Na oposta

Riba suspira um passarinho; e o canto,

E a meia luz, e o sussurrar das águas,

E aquela fada ali, tão doce vida

Davam ao quadro, que o ardente aluno

Trocara por aquilo, uma hora ao menos,

A Faculdade, o pergaminho e o resto.

***

Súbito erige o corpo a ingênua virgem;

Com as mãos, os cabelos sobre a espádua

Deita, e rasgando lentamente as ondas,

Para a margem caminha, tão serena,

Tão livre como quem de estranhos olhos

Não suspeita a cobiça...Véu da noite,

Se lhos cobrira, dissipara acaso

Uma história de lágrimas. Não pode

Furtar-se Otávio à comoção que o toma;

A clavina que a esquerda mal sustenta

No chão lhe cai; e o baque surdo acorda

A descuidada nadadora. Às ondas

A virgem torna. Rompe Otávio o espaço

Que os divide; e de pé, na fina areia,

Que o mole rio lambe, ereto e firme,

Todo se lhe descobre. Um grito apenas

Um só grito, mas único, lhe rompe

Do coração; terror, vergonha... e acaso

Prazer, prazer misterioso e vivo

De cativa que amou silenciosa,

E que ama e vê o objeto de seus sonhos,

Ali com ela, a suspirar por ela.

***

“Flor da roça nascida ao pé do rio,

Otávio começou — talvez mais bela

Que essas belezas cultas da cidade,

Tão cobertas de jóias e de sedas,

Oh! não me negues teu suave aroma!

Fez-te cativa o berço; a lei somente

Os grilhões te lançou; no livre peito

De teus senhores tens a liberdade,

A melhor liberdade, o puro afeto

Que te elegeu entre as demais cativas,

E de afagos te cobre! Flor do mato,

Mais viçosa do que essas outras flores

Nas estufas criadas e nas salas,

Rosa agreste nascida ao pé do rio

Oh! não me negues teu suave aroma!”

***

Disse, e da riba os cobiçosos olhos

Pelas águas estende, enquanto os dela,

Cobertos pelas pálpebras medrosas

Choram — de gosto e de vergonha a um tempo,

Duas únicas lágrimas. O rio

No seio as recebeu; consigo as leva,

Como gotas de chuva, indiferente

Ao mal ou bem que lhe povoa a margem;

Que assim a natureza, ingênua e dócil

Às leis do Criador, perpétua segue

Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem

Padecer e saber que sente e morre.

***

Pela azulada esfera inda três vezes

A aurora as flores derramou, e a noite

Vezes três a mantilha escura e larga

Misteriosa cingiu. Na quarta aurora,

Anjo das virgens, anjo de asas brancas,

Pudor, onde te foste? A alva capela,

Murcha e desfeita pelo chão lançada,

Coberta a face do rubor do pejo,

Os olhos com as mãos velando, alçaste

Para a Eterna Pureza o eterno vôo.

***

Quem ao tempo cortar pudera as asas

Se deleitoso voa? Quem pudera

Suster a hora abençoada e curta

Da ventura que foge, e sobre a terra

O gozo transportar da eternidade?

Sabina viu correr tecidos de ouro

Aqueles dias únicos na vida

Toda enlevo e paixão, sincera e ardente

Nesse primeiro amor d’alma que nasce

E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,

Consciência; razão, tu lhe fechavas

A vista interior; e ela seguia

Ao sabor dessas horas mal furtadas

Ao cativeiro e à solidão, sem vê-lo

O fundo abismo tenebroso e largo

Que a separa do eleito de seus sonhos,

Nem pressentir a brevidade e a morte!

***

E com que olhos de pena e de saudade

Viu ir-se um dia pela estrada fora

Otávio! Aos livros torna o moço aluno,

Não cabisbaixo e triste, mas sereno

E lépido. Com ela a alma não fica

De seu jovem senhor. Lágrima pura,

Muito embora de escrava, pela face

Lentamente lhe rola, e lentamente

Toda se esvai num pálido sorriso

De mãe,

***

Sabina é mãe; o sangue livre

Gira e palpita no cativo seio

E lhe paga de sobra as dores cruas

Da longa ausência. Uma por uma, as horas

Na solidão do campo há de contá-las,

E suspirar pelo remoto dia

Em que o veja de novo... Pouco importa,

Se o materno sentir compensa os males.

***

Riem-se dela as outras; é seu nome

O assunto do terreiro. Uma invejosa

Acha-lhe uns certos modos singulares

De senhora de engenho; um pajem moço,

De cobiça e ciúme devorado,

Desfaz nas graças que em silêncio adora

E consigo medita uma vingança.

Entre os parceiros, desfiando a palha

Com que entrança um chapéu, solenemente

Um Caçanje ancião refere aos outros

Alguns casos que viu na mocidade

De cativas amadas e orgulhosas,

Castigadas do céu por seus pecados,

Mortas entre os grilhões do cativeiro.

***

Assim falavam eles; tal o aresto

Da opinião. Quem evitá-lo pode

Entre os seus, por mais baixo que a fortuna

Haja tecido o berço? Assim falavam

Os cativos do engenho; e porventura

Sabina o soube e o perdoou.

***

Volveram

Após os dias da saudade os dias

Da esperança. Ora, quis fortuna adversa

Que o coração do moço, tão volúvel

Como a brisa que passa ou como as ondas,

Nos cabelos castanhos se prendesse

Da donzela gentil, com quem atara

O laço conjugal: uma beleza

Pura, como o primeiro olhar da vida,

Uma flor desbrochada em seus quinze anos,

Que o moço viu num dos serões da corte

E cativo adorou. Que há de fazer-lhes

Agora o pai? Abençoar os noivos

E ao regaço trazê-los da família.

***

Oh longa foi, longa e ruidosa a festa

Da fazenda, por onde alegre entrara

O moço Otávio conduzindo a esposa.

Viu-os chegar Sabina, os olhos secos

Atônita e pasmada. Breve o instante

Da vista foi. Rápido foge. A noite

A seu trêmulo pé não tolhe a marcha;

Voa, não corre ao malfadado rio,

Onde a voz escutou do amado moço.

Ali chegando: “Morrerá comigo

O fruto de meu seio; a luz da terra

Seus olhos não verão; nem ar da vida

Há de aspirar...”

***

Ia a cair nas águas,

Quando súbito horror lhe toma o corpo;

Gelado o sangue e trêmula recua,

Vacila e tomba sobre a relva. A morte

Em vão a chama e lhe fascina a vista;

Vence o instinto de mãe. Erma e calada

Ali ficou. Viu-a jazer a lua

Largo espaço da noite ao pé das águas,

E ouviu-lhe o vento os trêmulos suspiros;

Nenhum deles, contudo, o disse à aurora.



* Corrigido pelo autor na errata. No texto consta Como.

* Mantivemos a acentuação do autor apenas para caracterizar a pronúncia fechada da vogal.

* A forma provável da preposição é de. Manteve-se conforme registra o original.

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